Japonês
besta
Certa vez, saímos numa
pescaria – dessas que nem
mesmo o sol já quase encostando
na terra às seis da manhã
atrapalha. Eita dia bonito!
Então, para começar,
arrumamos a “traia”,
colocamos no Fiat 147 e ajeitamos
uns pães com mortadela.
Peguei umas macinhas de pão,
molhei e coloquei num potinho
de patê que já estava
no finalzinho e: “Simbora
pro rio Paraná!”
– aqui em Epitácio.
Rapaz, antes de sair, ainda teve
aquela demora: pega o Alemão,
passa na casa do japonês
e abastece o buzinga. Agora sim.
- Tudo certo, rapaziada? Posso
tocar o pé de bode então?
- Simbora, branquelo. - disse
o japonês.
Chegando no rancho, em Epitácio,
desembarcamos e, já sem
perder tempo, levamos o barco
para a beira do rio e ajeitamos
os mata-moscas das janelas da
casa onde iríamos dormir.
E tem que ajeitar mesmo, porque
por lá pernilongo é
mato com zumbido e se deixar eles
te carregam e você acorda
no quintal.
Tudo certo, tomamos uma catiróba,
que da um embalo para partir para
dentro do rio. Remo para sair
e ligo o motor 25 –e dalhe
água!
- Ihuuuuuu! – gritou o Alemão.
- Oh vidão; acaba não!
– falou o Japonês.
E só felicidade. Paramos
numa ceva da boa, no pardão
ainda. Ali ficamos umas duas horas
e já ficamos satisfeitos
com uns piauzinhos na medida:
“O boniteza de lugar, gente!
Uma paz, um relento, uma calmaria
na água, um peido lavado
e um ar fedido. Opa! Um peido
fedido!”
- Jesuis! Falou o Alemão
já rindo.
- O que foi isso, Japonês?
- Ai aia ai! – falou o Japonês
– Chega mais pra barranca
aí, branquelo, que me bateu
uma lombra. – completou.
- Rapaz, aqui não tem beira
de barranco fácil de subir
não. Vai no mato mesmo?
– disse o Banquelo.
- Ah se vou! Encosta ali ó.
– pediu o Japonês
– Rápido, seu fio
de quenga – apressou o Japonês.
- Ô, Japonês, tira
roupa, pula na água e resolve
logo; deixa de vergonha! –
falou o Alemão, tentado
dar apoio moral.
- Não, não, para
ali que tem uns galhos pra subir.
Vamo, vamo. – dizia o Japonês
angustiado.
Desliguei motor, o Alemão
pegou o remo e apoitamos no barranco.
O Japonês foi como um doido
por causa do desarranjo. Subiu
o barranquinho já com uns
peidos fortes – e um atrás
do outro. Aquilo chegava a assustar
tanto os ouvidos quanto o nariz
da gente; só que o momento
era sério e então
empacamos a pescaria por uns quinze
minutos.
Passado o tempo, o japonês
voltou aliviado, mas limpou a
sujeira com umas folhas de bananeira,
porque não tínhamos
trazido nada de papel. Se bem
que todo mundo faz as necessidades
antes de sair pra pescaria.
Já dentro do barco, eu
e o Alemão sentimos que
não ficou bem limpo, por
causa do cheiro. Então
pedimos pro Japonês dar
um jeito.
- Japa, pula na água e
lava essa bunda! – disse
o Alemão.
- Tá bom, tá bom,
preciso mesmo, rapaz! –
concordou o Japonês –
Limpei com uma folha lá
e agora está me dando umas
coceiras!
Foi então que o Japonês
tirou a calça e pulou na
água para se limpar e aproveitou
pra fazer mais um caldinho ainda.
Nisso, eu e o Alemão já
não nos aguentávamos
mais de gargalhar no barco vendo
a situação e a cara
do Japonês – mais
vermelha que tomate. Seria a melhor
saída se fôssemos
embora sem pegar peixe algum,
mas demos sequência na pescaria
e aos poucos, entre um riso e
outro e umas tiradinhas no Japonês,
vinha um peixe bom.
Maravilhoso o sol que nos abraçou
o dia todinho; um domingo com
feriado na segunda-feira, demais
da conta. Muito tranquilos.
De volta para a casa do rancho,
de banho tomado, fritando uns
peixinhos e tomando uma cerveja,
fiz a pergunta:
- Alemão, coloquei umas
massinhas num potinho de patê,
você não viu no meio
da tralha? Quero usar amanhã,
meu! Vai dar isca boa.
- Rapaz, nem vi não, hein!
Mas será que você
esqueceu no barco? – falou
Alemão.
- Nada, nem levei.
No canto da varanda, sentado na
rede, ecoa a voz do Japonês:
- Tá brincando que era
isca! Ah! Então foi isso
que me deu a caganeira danada,
meu. Ninguém me avisa!
Comi com pão lá
no posto, rapaz! Achei que era
patê. Passei umas duas facadas
dela no pão e mandei pra
dentro.
- Ô Japoneis besta, meu!
Como pode! – falou o Alemão
dando risada.
- Mas você tem problema,
hein Japonês! Não
percebeu nada? Toma tento rapaz.
E aí! Sobrou alguma coisa?
– perguntei ainda rindo.
- Se sobrou tá caído
la no carro, meu. O que você
pôs naquilo, Branquelo?
Laxante, cara? Meu estomago ainda
tá ruim.
- Ê laiá! Espero
que não fique mal na madrugada,
hein Japonês! Senão
vou ter que dormir com os pernilongos
aqui fora. – falou Alemão.
- Pior, com os peidos dele, nem
nós nem os pernilongos
se salvam aqui! – finalizei
o papo com muitas gargalhadas.
Alessandro A. de Souza
Você
não pode copiar, distribuir,
executar, criar obras derivadas
nem fazer uso comercial desta
obra sem devida autorização
do escritor ou dos detentores
do site www.presidenteepitacio.com.br